Povos ribeirinhos: a realidade de habitantes nativos do Amazonas

Imagem retangular com uma paisagem natural apresentando um fim de tarde em tons amarelados. Ao fundo, um céu azul com nuvens, juntamente com um pôr do sol refletindo seus raios sobre as águas de um rio cercado por floresta. À frente, galhos retorcidos e um ponta de uma canoa na cor amarela.

População tradicional teve existência reconhecida formalmente pelo governo apenas em 2007

Era 7 de fevereiro de 2007 quando o Governo Federal brasileiro admitiu a existência formal do que foi reconhecido como populações tradicionais, através do Decreto Presidencial n.º 6.040. Nesta categorização estão incluídos os povos ribeirinhos – habitantes das margens dos rios e que vivem em comunhão com as condições oferecidas pela natureza. Sendo assim, adaptam-se aos períodos de seca e chuvas, tendo inclusive suas casas inundadas pela condição climática durante uma parte do ano.

Dispondo da pesca artesanal como sua maior atividade de sobrevivência, os ribeirinhos também encontram na agricultura uma saída para renda e subsistência. Mas a opção por viver às margens do rio não foi exatamente a primeira ideia dos que chegaram ao Amazonas em busca de trabalho, um período que remonta ao século 19. Na época, o látex extraído das seringueiras na região amazônica era um atrativo novo para a produção crescente de borracha no país. Com isso, empresas ofereciam trabalhos no ciclo de extração, o que atraiu habitantes de diferentes regiões, principalmente do nordeste. 

Com a conhecida Crise da Borracha, nos anos de 1950, os imigrantes seringueiros se viram sem alternativa de trabalho, uma vez que a extração do látex caiu consideravelmente. Junto a isso, a falta de políticas públicas para auxiliar os recém-desempregados pela crise fez com que esse contingente de trabalhadores se espalhasse ao longo dos rios. Dessa forma, encontraram comida e uma nova forma de trabalho, além de construírem suas moradias nesses locais.

Por viverem em comunhão com a natureza e, principalmente, com os rios, as construções dos ribeirinhos são adaptadas para as enchentes, apesar de serem simples, sem saneamento básico e energia elétrica na maior parte dos casos. As moradias, construídas principalmente em madeira, são em sua maioria casas palafitas. Erguidas alguns metros acima do nível do rio, este estilo de construção evita que as casas sejam invadidas pelas águas durante as enchentes. Além disso, as palafitas ainda possuem a tecnologia de uso de tábuas para subir o piso nos períodos de cheia. 

O rio, que tem papel de renda, subsistência e moradia para os ribeirinhos, exerce também a única forma de deslocamento entre localidades para os povos. Através dele, barcos e jangadas se tornam o meio de transporte exclusivo da região. Apesar da pesca ser a atividade fundamental destes habitantes, a plantação de milho e mandioca, juntamente com a produção de farinha e a coleta da castanha e do açaí também ocupam lugar de destaque nas atividades agrícolas das comunidades ribeirinhas.

Povos ribeirinhos
Imagem: reprodução

A relação intensa com a natureza não apenas dita a forma de vida e trabalho dos ribeirinhos, mas também garante a eles um conhecimento diferenciado a respeito de sabedorias milenares, tais como o uso de plantas medicinais, a compreensão do ritmo e caminho das águas, as melhores épocas de plantio e aspectos típicos da fauna e da flora locais. Estes saberes fazem parte de uma tradição cultural de ancestralidade, mantida mesmo no mundo globalizado atual. 

Se por um lado essa vida em sintonia com o ecossistema é benéfica, por outro, as comunidades ribeirinhas convivem com o isolamento social e econômico, ficando à margem de diversas políticas públicas, que poderiam auxiliar na sua qualidade de vida. Este fato ficou ainda mais evidente durante a pandemia da Covid-19. A situação geográfica limitante agrava o acesso à saúde, tão necessário no momento atual. 

O Rio Negro, por exemplo, que pode ser visto como fator isolante das comunidades ribeirinhas, no início da pandemia foi fator protetor. Enquanto Manaus era a cidade mais atingida do país na primeira onda do coronavírus, nenhum infectado foi registrado junto aos povos ribeirinhos. Entretanto, o quadro não se manteve tão favorável na segunda onda. Postos de telessaúde, barcos médicos e muita solidariedade foram motores fundamentais para que o cenário não atingisse níveis catastróficos. 

Diversas ações, nacionais e internacionais, espalhadas em uma onda de sensibilidade e cooperação, chegaram nas comunidades ribeirinhas junto ao Coronavírus, fazendo dele uma calamidade menor do que a esperada. Postos de telessaúde adotados pela FAS e ações de doação de cestas básicas, como a Campanha Manaus Mais Humana, do Codese-Manaus, ambos em parceria com o Somos Todos Amazonas, são exemplos de como é possível encontrar esperança neste momento. 

A situação atual mostra que, ainda que permeadas por dificuldade e com o isolamento, as comunidades ribeirinhas carecem de um olhar cuidadoso. Seus saberes são a contrapartida fundamental quando pensamos em investimentos e, por essa razão, é necessária uma inserção econômica para esta população, a qual pode ter sua economia local alimentada por ações de diferentes setores, ainda mais em um tempo que se fala com tanto afinco em sustentabilidade. 

 

 

 

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