Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU são ‘sonho comum da humanidade’, diz Nakagawa

Autor de ‘101 dias com ações mais sustentáveis para mudar o mundo’ fala da importância do tema

A palavra “sustentabilidade” nunca esteve tão em alta. Nos últimos 10 anos, a preocupação com questões globais, como mudanças climáticas, preservação de recursos naturais, desenvolvimento de tecnologias limpas e cultura do consumo consciente fez com que a sustentabilidade ganhasse visibilidade. Novas profissões nasceram para atender essa demanda mercadológica. Empresas contratam consultorias para se adaptar ou mudar os rumos do seu negócio. 

Pensando nessa demanda, Marcus Nakagawa, vencedor do Prêmio Jabuti o principal da literatura nacional na categoria Economia Criativa, passou a criar ações para ajudar pessoas a se tornarem mais atentas ao planeta. Professor da ESPM-SP e palestrante, Nakagawa lançou o livro “101 dias com ações mais sustentáveis para mudar o mundo” (Editora Labrador), atendendo ao que ele diz ser um “chamado pessoal”.

O livro nasceu de uma vaquinha virtual feita em seu aniversário de 40 anos, em 2017. Ao vislumbrar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU como sonhos comuns da humanidade, Nakagawa descreve o que acredita que podemos realizar no dia a dia para nos tornarmos mais conscientes. O professor usou a pandemia para descobrir novas formas de trabalho e espalhar ainda mais a ideia de seu livro, de uma atenção maior ao futuro coletivo. 

Leia mais:

Biodiversidade amazônica cresce nos últimos anos com novas descobertas

Prefeitura de Manaus anuncia nova estratégia de vacinação para profissionais de saúde 

SOMOS: O que devemos fazer para sermos mais sustentáveis?

Marcus Nakagawa: Quando se fala de sustentabilidade, as pessoas associam normalmente a questões apenas do meio ambiente, mas o conceito de sustentabilidade é muito maior. Quando trabalhava em grandes empresas, percebi que os próprios funcionários não entendiam o conceito. Depois, quando fui para a academia, os questionamentos se tornaram ainda mais fortes por alunos de graduação e pós-graduação no momento em que eu apresentava essa ideia. Então, em uma viagem para dar uma palestra, resolvi listar o que eu achava que era importante para ser sustentável no dia a dia. Quando cheguei em 100 atividades, resolvi que um dia transformaria em um livro.

SOMOS: Você imaginava que o livro que nasceu de uma vaquinha virtual teria uma repercussão tão grande?

MN: Não imaginava. Era mais uma demanda que tinha no meu dia a dia de dar aulas, consultorias e palestras. Mas, por acaso, percebi que era uma demanda também da sociedade, uma vez que o prêmio Jabuti em Economia Criativa representa exatamente esse ponto. Um dos critérios da categoria era justamente como se coloca a sua ideia na prática. Não escrevi o livro pensando nisso. Escrevi para que as pessoas usassem como um manual diário. E acabei recebendo esse prêmio que acredito que não é meu, é para o tema. O prêmio é para que as pessoas façam. 

SOMOS: Se você tivesse que escolher apenas cinco das 101 ações para as pessoas começarem a fazer no dia a dia, quais seriam?

MN: A primeira ação que mais gosto é: gentileza gera gentileza. Para mim, se o mundo pensasse assim, eu não precisaria nem escrever o livro. O segundo ponto, já conhecido, é dos R’s – repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar – que são simples de aplicar, principalmente o recusar. Outra ação importante, mas bem polêmica, é urinar no banho. Porque a descarga no Brasil é de água limpa, e você estará economizando uma descarga. A gente poderia aproveitar a água que lavamos a mão, a água cinza, mas aqui não acontece. O quarto ponto é ajudar um amigo ou um familiar, lembrando que a sustentabilidade é muito mais que as questões ambientais, mas também as questões sociais. E, por último, que a gente faça um consumo mais consciente, pesquise sobre a empresa e o produto para entender como ela minimiza o seu impacto no planeta. 

SOMOS: Quando você escreveu o livro, pensou em um público-alvo específico ou em algo geral que todos têm que ler?

MN: Pensei no geral mesmo. Mas agora, depois que foi assentando tudo, vejo que é um livro que faz muito sentido para as escolas. Doei mais de 100 livros para escolas públicas de São Paulo, que era uma das moedas de troca da vaquinha virtual. Quando alguém comprava um livro, eu doava outro para uma escola. Para as escolas, é um livro muito prático. Recebo muitas mensagens de pessoas falando que estão implementando com os alunos. Um público bem bacana também é o de funcionários de empresas. Muitas empresas me chamam para fazer palestras e acabam comprando o livro, e entre eles se torna quase um campeonato de quem consegue cumprir mais ações.

SOMOS: Você fala sobre os ODS no seu livro, uma pauta primordial do Somos Todos Amazonas. O que você pensa sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e como você enxerga a importância deles?

MN: Todo mundo reclama de alguma coisa. Reclama do lixo, da água, do salário, do dinheiro… Estamos sempre reclamando. O que os ODS são, então? Nada mais do que a compilação mundial de todos esses problemas e reclamações do mundo. O pessoal pensou quais são os principais problemas do mundo, e aí chegaram em um resumo de 17 ODS em 2015, com 195 países. Obviamente não foi tão simples assim, mas o que acho é que isso é um avanço do ser humano no planeta, um avanço de governança. Independente da nacionalidade, religião, ou raça, a gente conseguiu chegar em 17 sonhos comuns e trazer eles como pontos principais para tentarmos resolver. Para mim, os 17 ODS são exatamente o que a gente deveria se preocupar e focar no mundo. Eles deveriam ser a base de que todo mundo respira para fazer seu objetivo em uma empresa, uma ONG, ou um governo. 

SOMOS: Seu livro foi lançado em 2018. Em  2019 e 2020, o Brasil enfrentou graves problemas ambientais, inclusive com repercussão internacional, com as queimadas no Pantanal e o desmatamento na Amazônia. Seu livro ganha mais importância nesse momento?

MN: Com certeza. Acredito que essa necessidade latente da discussão de questões ambientais, que começou nos anos 70 e 80, vem em um crescendo muito forte. Essa nova geração somada às mídias sociais e à busca pelo propósito das suas causas tem um grande interesse sobre o tema. Então, acredito que fez todo sentido o livro. As demandas nesses últimos dois anos foram aumentando, não apenas academicamente, mas de todos os lados. Acho que eu estava antenado com uma demanda que agora vem sendo cada vez mais reforçada pela mídia e pelos investidores de empresas. 

SOMOS: A pandemia foi um período em que todos se reinventaram de alguma maneira. Você também? 

MN: Eu tinha um preconceito com o on-line. E quando a pandemia chegou, tive que começar a dar aulas on-line ao vivo. Tive de aprender, como o mundo inteiro, a tentar trazer a mesma dinâmica que você tem em sala de aula para dentro desse quadradinho. Bebi muito nas bases de pessoas de entretenimento, porque você acaba sendo uma concorrência para o Whatsapp, Facebook e Instagram. E aí me reinventei e criei uma plataforma chamada “Dias mais sustentáveis”. Nessa página comecei a colocar conteúdos e a me aventurar no Youtube com dicas e explicações sobre sustentabilidade. Além, é claro, do trabalho em mídias sociais e com um podcast que faço em parceria com um jornalista. Comecei a ver o que faço no dia a dia alinhando com essa ideia de gerar conteúdo.

SOMOS: A quarentena fez as pessoas melhores em algum sentido? De pensar a sustentabilidade, por exemplo?

MN: Essa é uma ótima pergunta, porque penso muito sobre isso. Saíram várias pesquisas de grandes empresas, por exemplo da McKinsey com 1.046 pessoas no Brasil, na época da Covid-19 em 2020. Foi percebido que 60% das pessoas estavam comprando produtos mais frescos; dois terços achavam mais importante agora se atentar a questões climáticas; 60% fizeram mudanças significativas de estilo de vida, impactando o meio ambiente. As pessoas começaram a dar mais valor ao seu estilo de vida, olhar mais o lugar que elas habitam. Muita gente virou “doida das plantas” em casa. Além disso tudo, mudamos o relacionamento com os resíduos, uma vez que você começa a notar o tamanho da sua produção por ficar em casa o tempo inteiro. Muita gente começou a reciclar também. Então, acho que foi um movimento muito interessante, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas têm uma vida mais frenética, e acabaram parando e refletindo sobre o seu estilo de vida. Os “quarentenados” tiveram a obrigação de parar, respirar e repensar o seu legado para o mundo.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *